Sobre preconceito, machismo e feminismo

Esses dias tenho olhado bastante para trás e pensado em coisas que já falei, que já fiz, que já pensei. Como foi meu crescimento, aprendizado e pessoas que convivi que me fizeram quem eu era e quem eu sou.

E olha, posso dizer que não sinto orgulho de quem eu fui, ou de coisas que disse. A verdade é que cresci em uma família mais machista, no meio de muitos tios e primos homens, estudei em um colégio muito bom e católico, nunca foi extremista e as aulas de ensino religioso eram de formação humana, nada forçado. Mas era um colégio com pouca abertura sobre relacionamento, sobre homem e mulher, poucos negros e me lembro de apenas um homossexual.

Nunca fiz parte do grupo adiantado, que ia pra balada na oitava série ou que já tinha lista de casos e rolos. Então não tinha nenhum entendimento sobre relações, eu estava mais preocupada em brincar e dançar mesmo, sempre fui muito inocente. E então fui crescendo, tive os meus primeiros relacionamentos, desilusões, começo da faculdade e tudo vai mudando. E eu que nunca fui de questionar ou observar, mudei meu ponto, comecei a reparar mais nas pessoas, em atitudes, em diferenças, comportamento. Essa, sou eu até hoje, eu observo, sempre e muito. Mas lá atrás, convivi com pessoas machistas, com preconceituosos. Piada de mulher na beira do tanque, relação homem com homem é errada, mas mulher com mulher pode ser legal. Mulher ganhar menos, fazer todos os serviços da casa, e quando o homem faz deve ganhar uma estrelinha e destaque.

Já fiz piadas sobre gays, com conhecidos gays (e que eu não sabia), já julguei muita gente e devo ter feito cara feia pra muita coisa. Já achei graça andar de carro com amigos e rir deles mexendo com as meninas na rua. Ri da família ensinando os pequenos a mexer com as meninas na rua, porque criança é fofo né.

E a verdade é que meu lado feminista foi bem formado, mesmo minha mãe começando a trabalhar bem tarde, e não porque meu pai obrigou ela a ficar em casa, foi uma opção cuidar dos filhos e da casa. Ela que sempre conversou pouco, dava alguns toques de vez em quando sobre ser mulher com coisas simples e bobas como: nunca deixe um homem ditar a cor do seu esmalte, não acostume mal um homem fazendo tudo por ele, e depois trabalhando pra sustentar uma casa e filhos. Ali eu já entendia que a vida é minha, o corpo é meu, se gosta de mim é assim mesmo, com unha branca, preta ou vermelha, com decote e saia ou com moletom largado.

Tive um namorado machista e preconceituoso, mas na época, no amor, isso não era importante, nem com a relação errada como era. E duas coisas sempre me marcaram nessa relação abusiva, a primeira é que ele uma vez disse para eu nunca engordar porque se não ele iria terminar comigo (é sério), e outra que ele devia sair com os amigos, sempre e sem me avisar, mas quando eu saía com amiga, ele fazia eu me sentir mal.

Aí eu comecei a questionar tudo isso, o por que dessas atitudes, o que eu tava fazendo, quem eu estava machucando com piadas sem graça e de mal gosto. E comecei a expor opiniões, comecei a ler outras e até a reparar mais em comentários preconceituosos de amigos próximos. Que triste me ver lá atrás, triste ver que nunca questionei nada, triste ver que nunca defendi nenhuma ideia, só repassei piada, só olhei com o olhar dos outros, daqueles que colocaram conforme cresci.

Mas hoje eu vejo como o meio influencia, como nos forma, mas como podemos mudar ao dar um passo atrás e enxergar melhor a roda, os pensamentos.

E chego então a hoje, que me sinto mal pelo que já disse, me sinto mal pelo que fui e já aceitei sem questionar ou me impor, e pela tristeza quando reparo melhor o meio, as atitudes, os comentários e como discutir tudo isso ainda é tabu, é difícil, como tem gente com a mente fechada, presa a conceitos antigos, como tem pessoas que ainda olham somente para si, sem pensar no próximo, sem pensar nas dificuldades, problemas, como sofrem com o que passam diariamente.

E passo para um pensamento mais profundo de gerações e futuro. Talvez um dia eu tenha um filho para ensinar desde criança a respeitar o próximo a ver com bons olhos, mas talvez eu nem queira ter um filho, por ver que nosso mundo está bem longe de respeitar a todos igualmente, que se eu tiver um filho, ele sofra por ver tanta maldade, por criar uma criança de mente aberta e olhar sensível e até aí ele sofra por ser uma pessoa boa.

E então, boa parte de eu estar me tornando muito mais feminista e tolerante é porque me casei com um homem que caminha para essa mesma formação, esse mesmo pensamento. Que também entende como serviço e não coisas de homem ou de mulher, que não lava a louça pra me agradar, mas porque sabe que ele também tem atividades e funções da casa, que limpa o fogão, o forno e tira o lixo, e não porque eu pedi enquanto estava ocupada com outra coisa, mas porque sabe que para uma casa se manter, é preciso cuidar dela. Que cozinha porque gosta, as vezes me tira da cozinha, não pra fazer surpresa ou porque é uma data especial, mas porque está afim de pilotar o fogão. E que se voltar ali no assunto de gerações e filhos, ele sabe que acordar de madrugada e trocar a fralda não será um mérito de um bom marido e pai, mas porque ele será tão pai quanto eu serei mãe, que a responsabilidade é dos dois.

E aí, nossas conversas rumam nesse caminho de como é triste ver ainda onde o mundo está, ver as pessoas comentando que mulher gosta de receber “elogios” na rua, que o homem chega em casa cansado e não vai fazer tarefas do lar mesmo com a mulher também trabalhando, que as pessoas se impressionam com meninas andando de skate e tocando bateria porque ainda é visto como atividade de menino e não porque ela é realmente boa naquilo, que acham um horror meninos querendo aprender a dançar, que mulher que vai no clube das mulheres é safada e tá querendo dar, que mulher que dá pra quem quer é vagabunda. Que gay é doença, que casal homossexual não pode constituir família, que a família tradicional brasileira é o caminho certo, que a novela ensina tudo errado quando mostra gay, mas que traição, vingança, morte, trapassa e até abuso sexual é okey passar.

E bom, vendo tudo isso, entendemos como é necessário cada um olhar pra dentro da sua casa, dialogar, entender o que cada um da família passa, o que os amigos passam. Não precisa ir muito longe pra conhecer um homossexual que sofre preconceito, que sofre agressão e não precisa muito tempo para conhecer ele melhor e saber quão normal e igual ele é, sonhos, desejos, profissão, capacidade. Também não precisa ir muito longe para ver uma mulher que só vive de servir o marido e não trabalha mais para não ganhar mais. Ou ainda, para saber de uma mulher que foi perseguida, que foi ameaçada e sofreu nas mãos de algum homem.

E vendo um pouco da realidade, saindo da sua caixinha, é bem mais fácil olhar para dentro de si, ver o que você anda falando por aí sem pensar, achando que está sendo justo, seguindo as leis da sua religião, seja ela qual for.

E ainda sei que estou longe de ser perfeita, deve cometer deslizes sem perceber, julgar sem saber. Mas sei que estou seguindo no caminho certo, que o amor é sempre a resposta.

Então entendemos que para mudar o mundo, é preciso melhorar a nós mesmos primeiro. Espalhando amor, compreensão, cumplicidade. E tem algum tempo que assim que tenho agido, defendo ideais, defendo o ser humano, as mulheres, o amor. Vamos olhar pra dentro, olhar para o outro e amar mais? Espalhar o amor!

Comments

comments

Mari Medeiros

Relações Públicas, fotógrafa, maquiadora, conectada e que gosta de fazer de tudo um pouco pra não cair no tédio.