Sobre Transição

substantivo feminino

1. passagem de um lugar, de um estado de coisas, de uma condição etc. a outra.

Sempre senti aquela pontada de inveja quando ouço relatos de pessoas que sentem algum tipo de mudança na vida. Lembro de um amigo dizer que ao longo da virada para os 30 anos sentiu. Não ao acordar no dia do aniversário e pesar a idade, mas sentir por alguns meses, as coisas mudando suavemente. Alguns costumes, alguns pensamentos, algumas dores, alguns traumas, alguns amores. Eu achei incrível ouvir ele falando de como foi essa transição para os 30, o que ele considerava uma vida adulta, uma mudança de fase. Eu já havia completado 30 e não tinha feito grande diferença. É claro que eu senti várias mudanças de quem eu era com 20, se comparar com quem fui me tornando aos 30, mas não foi de um ano para o outro sabe? Não mudou ar, a energia.

Não sei você, mas eu acredito muito em energia. Energia de um lugar, de eventos, de coisas e principalmente de pessoas.

E confesso que rolou uma frustração junto com a inveja. Eu acreditava que virar para os 30 anos seria um super acontecimento, seria uma mudança radical, uma nova energia. E não mudou nada. Não pude chegar nos 31 com muita história boa para contar de renovação, aprendizado, crescimento. Nada aconteceu!

Mas olha, 2017 foi o começo da minha transição. E não porque a lua ficou em x ou y, ou porque tal signo estava não sei aonde. Mas porque eu mudei. E aos pouco fui mudando por dentro, tomando mais consciência das minhas mudanças, do meu pensamento e posicionamento. Loucura né? Parece tão simples e ridículo que todo mundo deveria tentar. Mas não é assim. Mudei e o mundo vem ao meu encontro. Eu acho que é como mudar de capítulo em um livro, primeiro você não entende nada dos diálogos e caminhos, não entende porque está mudando o rumo do livro e de conversa. Aí você chega no capítulo seguinte e “ah, entendi o processo até aqui”. Aí você segue lendo e tudo vai se encaixando melhor, mas a verdade é que uma mudança lá atrás é o começo de toda essa revolução, dessa transição.

Por um bom tempo, para mim, a transição foi um processo de introspecção. Não tem nada a ver com solidão ou depressão. Mas aquela vontade de ficar quieta sabe? Sem muito o que conversar ou socializar. A vida ficou mais lenta, tranquila e confusa ao mesmo tempo.

Eu quero mudar, como que eu faço? Como você conseguiu?

Rá! Não é assim, não basta só sonhar e querer sabe? Tem que começar! Tipo fazer uma reeducação alimentar. Você pode até fazer forçada e ficar brava até perder os desejados quilos indesejados. Mas você pode encarar como mudança, como reeducação, com vontade de ser melhor, de ficar melhor, como um todo, não só nas coxas, quadris e barriga.

A verdade é que percebi que a transição acontece muito mais no silêncio, nos momentos sozinha, nas andanças entre um destino e outro, quando a mente vai longe, quando encontramos algumas soluções, algumas justificativas, alguns insights.

Eu vejo quase como uma auto terapia. É voltar em alguns questionamentos, pensar em atitudes que teve no passado. Voltar na adolescência e ver escolhas que teve lá e como você chegou com elas até aqui. Resgatar algumas memórias e porque elas seguem te rodeando, o que elas significam para você e como você as vê agora. Não é pensar no que mudaria,o que faria diferente, mas o que aprendeu, quem você se tornou graças a cada situação.

E eu acho que devemos fazer isso a vida toda, mas em algumas fases da vida, elas são o caminho para transição. É quando a gente dá mais um passo para a evolução sabe? A gente aceita trocar a pele, se desprender de tanta coisa que nem faz sentido.

A vida é toda feita de fases e isso é completamente normal. Mas quando vamos entrando em algo que pareça a vida adulta, vamos enxergando novos medos, perdendo tantas certezas, enxergando melhor os adultos que nos criaram. Passamos a questionar tantas certezas que parecem loucura. Passamos a ser mais duros com coisas bobas e ter certezas que ninguém mais tem.

E pra mim, não foram só sobre dúvidas e certezas, mas sobre não esperar que o mundo fique alinhado para eu seguir um caminho certeiro. Sobre esperar algumas certezas chegarem para eu tomar um caminho. É tudo muito escuro sempre, e vão ter erros e acertos. Mas o mais importante disso tudo, foi aceitar que eu posso escolher um caminho. E mais importante ainda, saber que quando parar de fazer sentido, eu posso mudar, mais uma transição pode acontecer! Não existe regra nessa vida que diz que se eu escolher a estrada A, é nela que eu vou pro resto dos meus dias. Eu posso correr, andar mais devagar, pegar uma estradinha de terra Y, depois ir para uma outra B depois de um tempo.

O importante disso tudo, é nunca parar, sempre ver possibilidades, correr atrás das que interessam, das que nos movem, mudar, estudar, aprender, reaprender. A transição começa com pequenos passos, reflexões e mudanças. De dentro para fora!

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Mari Medeiros

Relações Públicas, fotógrafa, maquiadora, conectada e que gosta de fazer de tudo um pouco pra não cair no tédio.